Kafka escreveu A Metamorfose muito antes das redes sociais, mas talvez poucas obras expliquem tão bem o nosso tempo.
Gregor Samsa acorda transformado em algo irreconhecível. Mas o ponto mais incômodo da história não é a aparência. É perceber que, quando ele deixa de cumprir a função esperada, as pessoas deixam de enxergá-lo como humano.
Nas redes, a metamorfose é outra.
Acontece quando alguém começa a se adaptar tanto ao olhar dos outros que perde a própria voz. Quando a pessoa deixa de comunicar o que pensa e passa a performar o que acredita que esperam dela.
A marca pessoal, quando nasce apenas da estética, vira personagem.
Quando nasce da consciência, vira presença.
No fim, Kafka talvez nos lembrasse que o maior risco não é não ser visto.
É ser visto todos os dias e, ainda assim, nunca ser verdadeiramente compreendido.
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